EV/EBITDA: o que é, como se calcula e o que o múltiplo não mostra
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O que é
EV/EBITDA é um múltiplo de preço: divide o valor da firma pelo EBITDA. EV vem do inglês enterprise value, o valor da empresa inteira, e não só o das ações 1. EBITDA, ou LAJIDA em português, é o lucro antes de juros, tributos sobre o lucro, depreciação e amortização (art. 1º) 3 (veja [[ebitda]]). Ele costuma ser lido como uma medida do resultado da operação, mas, pela regra da CVM, parte do resultado líquido e não exclui itens não operacionais (art. 3º) 3.
O valor da firma costuma ser montado somando o valor de mercado (preço da ação vezes o número de ações; veja o verbete de valor de mercado) e a dívida líquida (dívida menos o dinheiro em caixa) 15. A lógica: quem quisesse comprar a empresa inteira pagaria pelas ações e ainda herdaria a dívida, mas também receberia o caixa.
O resultado aparece em "vezes", como 6,5x. Ele diz que o valor da empresa corresponde a 6,5 vezes o EBITDA de um ano. Não diz que o investimento se pagaria em 6,5 anos: o EBITDA ainda não descontou juros, impostos sobre o lucro nem os gastos para manter o negócio.
Como funciona
O raciocínio tem três passos.
- Medir o preço da empresa toda. Parte-se do valor de mercado, que muda todo dia com a cotação, e acrescenta-se a dívida líquida, que vem do balanço.
- Medir o que a operação gera. Usa-se o EBITDA de um ano: o do último exercício ou o dos últimos 12 meses. O período escolhido muda o resultado.
- Dividir um pelo outro. O resultado coloca empresas de tamanhos diferentes na mesma escala.
A razão de incluir a dívida é a seguinte. Duas empresas podem ter a mesma operação e financiar-se de modos diferentes: uma só com dinheiro dos sócios, outra com muita dívida. As ações da segunda valem menos, porque parte do valor da empresa pertence aos credores. Se o múltiplo usasse só o valor de mercado, a segunda pareceria menor para o mesmo resultado operacional. Somando a dívida líquida, as duas ficam no mesmo patamar de comparação. Livros-texto descrevem o EV/EBITDA como um indicador muito usado para comparar o valor relativo de negócios diferentes, em parte porque os dados saem das demonstrações financeiras públicas 1.
Os números de base podem ser conferidos. As companhias abertas entregam à CVM suas demonstrações padronizadas (DFP), com balanço, resultado e fluxo de caixa. O conjunto está nos Dados Abertos da CVM, sob licença ODbL, com atualização semanal e os últimos cinco anos 4.
A conta do EV/EBITDA
Valor da firma = valor de mercado + dívida líquida 15
Dívida líquida = dívida bruta − caixa e aplicações financeiras 5
EV/EBITDA = valor da firma ÷ EBITDA de 12 meses
- Valor de mercado: preço da ação multiplicado pelo número de ações. Muda com a cotação.
- Dívida bruta: empréstimos, financiamentos e debêntures (títulos de dívida emitidos pela empresa), de curto e longo prazo.
- Caixa e aplicações: dinheiro e investimentos de resgate rápido.
- EBITDA: calculado a partir das demonstrações. A Resolução CVM 156/2022 diz como: parte do resultado líquido e soma os tributos sobre o lucro, as despesas financeiras líquidas e a depreciação, a amortização e a exaustão (art. 3º) 3.
Atenção às versões. A Resolução CVM 156, que trata de LAJIDA e LAJIR, não define valor da firma 3. Quem calcula o múltiplo escolhe o que entra no numerador. Há quem desconte também, além do caixa, outros ativos cuja renda não entra no EBITDA usado 5. No LAJIDA calculado pela regra da CVM, o resultado de participações avaliadas por equivalência patrimonial fica dentro da conta, porque ela parte do resultado líquido (art. 3º, I) 3. Por isso o mesmo papel pode ter EV/EBITDA diferente em dois sites.
Na prática: duas empresas fictícias em 15 de outubro de 2026
Considere duas empresas inventadas, a Alfa S.A. e a Beta S.A. Elas têm a mesma operação: EBITDA de R$ 200 milhões nos últimos 12 meses e depreciação de R$ 50 milhões. A diferença está no financiamento. Para simplificar, os tributos sobre o lucro valem 30% do lucro antes deles, e os números são todos fictícios.
| Item (R$ milhões) | Alfa | Beta |
|---|---|---|
| Valor de mercado em 15/10/2026 | 1.000 | 600 |
| Dívida líquida | 0 | 400 |
| EBITDA | 200 | 200 |
| Depreciação | 50 | 50 |
| Juros (10% da dívida líquida) | 0 | 40 |
Valor da firma e EV/EBITDA
- Alfa: 1.000 + 0 = R$ 1.000 milhões. EV/EBITDA = 1.000 ÷ 200 = 5,0x.
- Beta: 600 + 400 = R$ 1.000 milhões. EV/EBITDA = 1.000 ÷ 200 = 5,0x.
Lucro líquido e P/L, para comparar
- Alfa: EBITDA 200 − depreciação 50 = 150. Tributos: 30% de 150 = 45. Lucro líquido = 105. P/L = 1.000 ÷ 105 ≈ 9,5x.
- Beta: 200 − 50 − juros 40 = 110. Tributos: 30% de 110 = 33. Lucro líquido = 77. P/L = 600 ÷ 77 ≈ 7,8x.
O P/L (preço sobre lucro) das duas é diferente, embora a operação seja igual, porque a dívida da Beta entra no lucro pelos juros. O EV/EBITDA das duas deu o mesmo 5,0x porque o valor da firma soma a dívida líquida às ações e o EBITDA é medido antes dos juros (art. 3º, I, da Resolução CVM 156) 3. No exemplo, o valor de mercado da Beta foi escolhido para que o valor da firma das duas fosse igual; na bolsa, os preços não se ajustam com essa exatidão. Isso mostra para que o múltiplo serve: comparar o preço da operação com menos interferência do financiamento. Ela não some por completo: o custo de capital, que a dívida afeta, ainda pode mexer no múltiplo 5.
Mas ele também esconde algo. A Beta paga R$ 40 milhões de juros por ano, e a Alfa não paga nada. Esse risco do endividamento aparece em outro indicador, a dívida líquida sobre EBITDA (veja [[divida-liquida-ebitda]]): 0,0x na Alfa e 2,0x na Beta.
Este exemplo é uma ilustração com dados fictícios, não uma projeção nem o retrato de empresas reais. Ele não diz que 5,0x é um número alto ou baixo.
EV/EBITDA ou P/L: o que muda
O P/L é o múltiplo mais conhecido. O leitor costuma colocá-lo ao lado do EV/EBITDA (veja [[preco-sobre-lucro-p-l]]).
| Aspecto | EV/EBITDA | P/L |
|---|---|---|
| Preço usado | Valor da firma (ações + dívida líquida) | Preço da ação |
| Resultado usado | EBITDA, antes de juros, tributos sobre o lucro, depreciação e amortização | Lucro líquido, depois de tudo |
| Efeito da dívida | Incluído no numerador | Entra no lucro pelos juros |
| Depreciação de máquinas e prédios | Ignorada | Descontada |
| Empresa com prejuízo | Calculável se o EBITDA for positivo | Sem sentido com lucro negativo |
| Dados necessários | Cotação, número de ações, balanço (dívida e caixa) e resultado | Preço e lucro por ação |
Os dois olham o preço contra o resultado, mas respondem a perguntas diferentes. Nenhum é "melhor".
O que o EV/EBITDA mostra e o que ele não mostra
Para que ele ajuda
- Compara empresas com estruturas de dívida diferentes, como mostra o exemplo acima, embora o custo de capital, afetado pela dívida, ainda influencie o múltiplo 5.
- É muito usado para comparar o valor relativo de negócios diferentes, porque os dados vêm de demonstrações públicas 1.
- Pode ser calculado quando o lucro líquido é negativo ou irrelevante, desde que o EBITDA seja positivo.
- Usa dados públicos das demonstrações, que o leitor consegue conferir 4.
- Ajuda a comparar o mesmo setor, em que o desgaste e os investimentos costumam ser parecidos; o investimento necessário varia entre setores 5.
Onde ele engana
- Herda o limite do EBITDA. Ele não é caixa: deixa de fora juros, tributos sobre o lucro e os investimentos para manter o negócio, que a empresa paga de verdade. A própria CVM fala em "potencial de geração bruta de caixa", e não em caixa 3.
- Ignora o investimento necessário. Setores que precisam renovar equipamentos o tempo todo podem ter EBITDA alto e pouco dinheiro sobrando depois desses gastos, e o múltiplo não mostra isso 5.
- Definições diferentes. O EBITDA ajustado é escolha da empresa, que descreve e justifica cada ajuste (arts. 4º e 5º) 3. O valor da firma também varia de fonte para fonte. Comparar números de origens distintas induz a erro.
- Foto de um momento. O valor de mercado muda todo dia, e o EBITDA é de um período passado. O múltiplo não mostra o crescimento da empresa 1.
- Não serve para tudo. Em bancos e seguradoras, captar e emprestar dinheiro é a própria atividade, o que torna difícil separar a dívida da operação.
- Não há valor "certo". Setores diferentes costumam ter múltiplos diferentes, e nenhuma norma oficial fixa o que é um número alto ou baixo. Um múltiplo baixo pode refletir risco ou queda esperada do resultado, e um alto, crescimento esperado ou apenas um EBITDA temporariamente baixo 5.
- Risco de perda. Quem compra ações de qualquer empresa pode perder parte ou todo o capital, seja qual for o múltiplo.
Regras e fiscalização no Brasil
Não existe imposto, produto financeiro ou garantia ligados ao EV/EBITDA: ele é uma medida de análise, calculada por quem o divulga. O FGC não se aplica.
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) fiscaliza as companhias abertas e regula uma parte da conta, o EBITDA. A Resolução CVM 156, de 23 de junho de 2022, publicada no Diário Oficial em 24 de junho de 2022, trata da divulgação voluntária de LAJIDA e LAJIR 2. Segundo o texto consultado em 15 de outubro de 2026 (confira a CVM para mudanças posteriores) 3:
- os valores partem das demonstrações contábeis, e a divulgação traz conciliação com elas (art. 2º);
- o cálculo geral não exclui itens não recorrentes, não operacionais ou de operações descontinuadas (art. 3º);
- ajustes são permitidos, se descritos e justificados, e a divulgação leva o termo "ajustado", ao lado do valor calculado pela regra geral (arts. 4º e 5º);
- a divulgação deve ser consistente e comparável com a de períodos anteriores (art. 7º);
- o auditor independente verifica os cálculos (art. 9º).
A norma não define valor da firma nem o múltiplo 3. Quem divulga um EV/EBITDA, seja empresa, seja site de dados, escolhe o próprio critério, e é preciso conferi-lo.
Perguntas frequentes
O que significa um EV/EBITDA de 8x?
Significa que o valor da firma é igual a oito vezes o EBITDA do período usado. É uma relação de tamanho. Não indica em quantos anos o valor se recupera, porque o EBITDA não desconta juros, tributos sobre o lucro nem investimentos.
Existe um EV/EBITDA de referência?
Não há número oficial. A leitura depende do setor, do risco, do crescimento e da forma como o EBITDA e o valor da firma foram calculados. Por isso o múltiplo é mais útil na comparação de empresas parecidas do que isolado.
Por que EV/EBITDA muda se o preço da ação não mudou?
Porque o EBITDA dos últimos 12 meses é atualizado a cada divulgação trimestral (o ITR, formulário trimestral entregue à CVM) 6, e a dívida líquida do balanço também muda. Qualquer um dos dois mexe na conta, mesmo com a cotação parada.
EV/EBITDA e P/L dão o mesmo resultado?
Não. O P/L usa o preço da ação e o lucro líquido. O EV/EBITDA usa o valor da firma, com a dívida, e o EBITDA. No exemplo acima, duas empresas com a mesma operação tiveram o mesmo EV/EBITDA e P/L diferentes.
Onde encontro os dados para calcular?
Nas demonstrações financeiras que as companhias abertas entregam à CVM, disponíveis nos Dados Abertos: o conjunto DFP traz as anuais 4, e o ITR, as trimestrais, necessárias para somar os últimos 12 meses 6. O valor de mercado depende da cotação do dia, que se obtém em fontes de mercado.
Para fechar
O EV/EBITDA relaciona o valor de toda a empresa, com a dívida, ao resultado da operação. Seu ponto forte é permitir a comparação entre empresas que se financiam de modos diferentes. Seu principal limite vem do EBITDA, que não é caixa, e das definições que mudam de uma fonte para outra: o mesmo múltiplo pode ser calculado de várias formas e não traz um valor oficial de referência. Para continuar, veja [[ebitda]], [[divida-liquida-ebitda]] e [[preco-sobre-lucro-p-l]].
Verbetes do glossário: EV/EBITDA EBITDA Valor de mercado P/L (preço sobre lucro) Dívida líquida / EBITDA
Fontes
- OpenStax: Principles of Finance, cap. 11.1, Multiple Approaches to Stock Valuation (CC BY 4.0; referência de explicação, sem regra brasileira) · consultado em 15/10/2026
- CVM: Resolução CVM 156/2022 (divulgação voluntária de LAJIDA e LAJIR), página da norma · consultado em 15/10/2026
- CVM: Resolução CVM 156/2022, texto integral (PDF oficial) · consultado em 15/10/2026
- CVM Dados Abertos: DFP, Demonstrações Financeiras Padronizadas · consultado em 15/10/2026
- Aswath Damodaran (NYU Stern): Session 16, post class tests and solutions (EV/EBITDA) · consultado em 15/10/2026
- CVM Dados Abertos: ITR, Informações Trimestrais · consultado em 15/10/2026
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Escrito em 15/10/2026 · checado em 15/10/2026 · versão 3